
Caros alunos:
Quando Obama afirma que a raiva dos negros é legítima, penso nos negros de nosso país e sua postura tão dócil e polida... Veja o texto do Herald Tribune:
Apartheid, Barack Obama e o pecado original americano
Roger Cohen
*Do The International Herald Tribune, em Nova York
Há coisas em que você passa a acreditar e coisas que carrega em seu sangue. No meu caso, tendo passado parte da minha infância no apartheid da África do Sul, eu carrego minha dose de vergonha.Na infância, a experiência não tem palavras mas não é menos poderosa por isso. Quão vasta, quão reluzente, era a praia de Muizenberg, perto da Cidade do Cabo, com toda aquela pele branca brilhante espalhada pela areia dourada!Os negros esqueléticos estavam em outro lugar, nadando além das rochas em um porto imundo, que eu assistia da janela da casa do meu avô e me espantava.Certa vez, uma babá negra me levou até o outro lado da rua até um parapeito acima dos trilhos ferroviários, ao lado daquele porto e me segurou sobre ele. "Você não ia querer que eu soltasse você", ela disse.O medo que senti permaneceu. Há poucos anos eu voltei para medir qual teria sido a altura da queda. Na memória, o abismo tinha uns 30 metros. Na verdade, era uma queda de 3 metros. Essa discrepância mede o pânico de criança.Uma placa de "Á Venda" se encontrava naquela que tinha sido a casa da família. Eu perguntei se podia visitá-la e recebi uma recusa grosseira, mas não antes de ter vislumbrado a montanha atrás, onde meu pai gostava de caminhar e onde eu temia as cobras entre os arbustos espinhosos.O medo, tão obscuro quanto os tubarões além das redes em Muizenberg, nunca esteve ausente de nossas temporadas africanas iluminadas pelo sol. O meu se formou a partir da desorientação: eu não exatamente fazia parte do sistema porque meus pais emigraram de Johannesburgo para o Reino Unido. Então, nos retornos para visita, eu entrava no toalete público apenas para negros ou me sentava no banco apenas para negros.Só para negros -e eu era branco. O apartheid entrou na minha consciência como uma espécie de auto-humilhação. As mulheres negras que me davam banho quando pequeno podiam tocar minha pele, mas o mundo delas era intocável.Apenas posteriormente a crueldade do sistema ganhou foco. Eu vejo homens brancos, com bafo de álcool, com carne vermelha em seus pratos, sob os jacarandás de Johannesburgo, desprezando a possibilidade de alguma vez desejarem uma mulher negra.Estas lembranças foram trazidas de volta pelo discurso pioneiro de Barack Obama nesta semana sobre raça. A escravidão foi de fato o "pecado original" dos Estados Unidos. É claro, "o legado brutal da escravidão e Jim Crow" persiste em formas de humilhação dos afro-americanos e revolta que ardem de formas incomunicáveis aos brancos.A segregação colocou os negros americanos no equivalente dos Estados Unidos àquele porto africano imundo.É preciso coragem para navegar nestes lugares onde a ferida é profunda, incompreensão a regra, assim como é preciso coragem para dizer, como fez Obama, que para os negros a "raiva é real; é poderosa; e simplesmente desejar que desapareça, sem entendimento de suas raízes, apenas serve para expandir o abismo de incompreensão que existe entre as raças".O progresso desde o movimento dos direitos civis, ou desde o fim do apartheid, aliviou as feridas de raça, mas não as fechou. Carregar minha parte de vergonha significa também carregar uma pista para os abismos silenciosos de rancor para os quais Obama apontou com palavras.Eu entendo a raiva de seu antigo pastor, o reverendo Jeremiah Wright, por mais odiosa que seja como a forma que a expressou. Eu admiro Obama por ter dito: "Não posso repudiá-lo mais do que posso repudiar a comunidade negra".Honestidade parece um elixir no momento. Por oito anos nós vivemos com as fórmulas áridas, nós contra eles, da mente inferior de Bush, que o resultado desta exploração cheia de nuances do assunto mais difícil da América se torna quase eufórico. Será que um ser humano, como Wright, ou como a avó de Obama, é de fato habitado por ambigüidades?Sim. Pode.A transição inimaginável na África do Sul, quase sem derramamento de sangue, que Nelson Mandela tornou possível é um lembrete de que liderança importa e palavras importam. O clamor nos Estados Unidos no momento por uma presidência que eleve em vez de humilhar é um reflexo do deserto intelectual e de oratória dos anos Bush.Hillary Clinton disse em janeiro que: "Você faz campanha com poesia, mas governa com prosa". Errado. Os Estados Unidos já estão cheios do prosaico.O impensável pode ocorrer. Quando era adolescente, meus parentes me aconselharam a curtir as piscinas que pontilhavam o subúrbio de Houghton, em Johannesburgo, porque "no próximo ano elas estarão vermelhas de sangue".Mas o banho de sangue inevitável nunca ocorreu. Mandela saiu da prisão em 1990 e buscou reconciliação, não vingança. Posteriormente Mandela diria: "Sempre parece impossível até que seja feito".Como incontáveis outros, eu vim para os Estados Unidos porque as possibilidades são maiores aqui do que nas fronteiras mais estreitas da Europa. Talvez seja meu "pecado original" africano, mas quando Obama diz que "eu nunca esquecerei que em nenhum outro país na Terra minha história seria possível", eu sinto o medo desaparecer, como um pesadelo recuando diante da idéia ainda instigante de que "dentre muitos, nós somos verdadeiramente um".
*Roger Cohen é editor-geral do "The International Herald Tribune". Os leitores são convidados a comentar em seu blog: www.iht.com/passages
Tradução: George El Khouri Andolfato


