terça-feira, 9 de outubro de 2007

Não seja um inseto!


I
Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado
num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao
levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos
arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar.
Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se
desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas
bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por
cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de
roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma
revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.
Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um
enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!
Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a
baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco
e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado
direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a
direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos,
para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor
entorpecida que nunca antes experimentara.

A METAMORFOSE, de FRANS KAFKA

4 comentários:

Anônimo disse...

...Parece que a mesmisse incomoda!

Dina

Prof. Bido disse...

Dina:

É verdade: a mesmice nos torna patéticos, paralisados, entediados. A não ser que a rotina seja uma escolha, um modo de vida, que tenha sentido.
Caso contrário, a mesmice é falta de imaginação e nos torna como insetos.

Abs

Bido

Sheila Santos disse...

Não entendi! mas se nos tornamos insetos devido a mesmice, a rotina também nos faz assim e como é difícil aceitar, quando ela se quebra, como é difícil deixar de ser e entender que apenas estamos. Tudo o que eu não quero é me tornar uma barata!

Prof. Bido disse...

Sheila:

A rotina é importante, também, desde que escolhida, contextualizada, fruto de nossa escolha racional e livre por um trabalho, por um afazer.

Se mergulhamos num cotidiano sem sentido, fazendo coisas das quais não gostamos, simplesmente porque não podemos fazer diferentemente. Aí, podem nos chamar de George Samsa.

Abs

Bido