Caros alunos e alunas:
Vejam a colaboração de Fabiana Sanches, pps sobre revistas femininas dos anos 50 e 60. Ali se representam os papéis sociais da feminilidade da época.
O texto está no link "textos das aulas, à direita da tela.
Divirtam-se!
quinta-feira, 8 de maio de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Comoção pela morte de Isabella

CONTARDO CALLIGARIS
A tragédia nos lembra afetos dolorosos que regram nossa maneira "moderna" de casar
HOJE, QUARTA-FEIRA, quando acabo esta coluna, não conhecemos os eventos que levaram à morte de Isabella Nardoni; só sabemos que a menina, de cinco anos, foi assassinada, intencionalmente ou não, enquanto estava na custódia do pai e da madrasta. E conhecemos um pouco a história da família: a mãe e o pai de Isabella não chegaram a se juntar -foi um romance adolescente que acabou antes de Isabella nascer. O pai tem dois filhos pequenos com sua mulher atual.É uma situação trivial: a pensão mensal, as visitas, o padrasto ou a madrasta, os meio-irmãos etc. Mas a banalidade dessa situação não deveria disfarçar o emaranhado de afetos dolorosos que ela produz -afetos que muitos vivem e que todos preferimos esquecer. Não sei se esses afetos são responsáveis pela morte de Isabella. Mas talvez eles sejam responsáveis pela extraordinária comoção produzida pela sua morte. Como assim? A morte violenta de uma criança nos fere a todos: é como se, ao mesmo tempo, alguém nos arrancasse um pedaço de nosso próprio futuro e destruísse a fantasia nostálgica da infância, que sempre cultivamos, mesmo que o primeiro período de nossa vida tenha sido infeliz. Mas a história de Isabella nos comove também por outra razão: as tentativas de "explicar" o acontecido evocam, inevitavelmente, as dificuldades de nossa maneira "moderna" de casar. São dificuldades nas quais, em geral, preferimos evitar de pensar. É comum que o marido ou a mulher (às vezes, ambos) levem para o casamento filhos que são frutos de uma relação anterior. Espera-se que isso aconteça sem complicação: afinal, se descasamos e casamos por amor, por que o mesmo amor não reinaria pelo lar todo? Pois é, o amor é uma coisa complicada. Exemplos. A rivalidade, que sempre existe entre irmãos, vinga entre enteados e meio-irmãos. E vinga redobrada, justamente por ser mais inconfessável do que a rivalidade entre irmãos -por ser silenciosa, reprimida pelo esforço geral de compor uma nova família ideal, em que todos os integrantes se amariam. Na nova família, à primeira vista, o homem convive com seus enteados melhor do que a mulher. Não é nenhum milagre do "instinto" paterno: o homem encontra uma satisfação narcisista no exercício da paternidade. Ele, aliás, curte ser e se sentir amado por suas qualidades "paternas". Pare ele, saber ser pai de filhos e enteados faz parte de uma virilidade que ele quer que seja reconhecida e festejada pela mulher. Mas cuidado: a encenação da paternidade, embora às vezes espalhafatosa, não resiste à pressão da culpa de dar para seus filhos de sangue menos do que para seus enteados. Essa culpa, envergonhada e reprimida, é inevitável, porque há uma coisa que o homem, na grande maioria dos casos, dá mais aos enteados do que aos filhos: sua própria presença no lar. A mulher, ao contrário, vive quase sempre uma rivalidade dramática com seus enteados: compete com eles como se ela fosse mais uma filha. Para a mulher, o enteado ou a enteada não usurpam o lugar dos filhos que ela trouxe de um casamento anterior, nem o lugar dos filhos que nasceram no novo casamento: eles ameaçam usurpar o próprio lugar dela. Essa rivalidade, escondida, expressa-se de maneiras travessas: por exemplo, numa crítica assídua das manifestações do afeto paterno do homem para com o filho ou a filha dele. Ou seja, para não admitir um ciúme envergonhado do enteado, a mulher censura o "excesso" dos sentimentos paternos do marido. Esse, criticado como pai, sente-se diminuído como homem. O desastre está às portas. São apenas exemplos. O casamento "moderno" é um nó de afetos reprimidos, uma convivência explosiva que aposta no amor do casal como se fosse remédio para todos os males. Não se trata de condenar a idéia de que seja possível refazer sua vida com outro ou outra e, nessa ocasião, levar consigo os filhos dos casamentos anteriores. Mas seria melhor que a gente se engajasse nesses projetos sem a ilusão de que os bons sentimentos prevalecerão por conta própria. Seria melhor, para começar, que nossas disposições menos nobres, em vez de silenciadas e reprimidas, fossem faladas, explicitadas. Isso, para evitar que, de vez em quando, a trágica morte de uma menina nos lembre, por um dia ou uma semana, que a vida das famílias "modernas" é muito mais difícil do que parece.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
Filhinhos da mamma: trintões italianos têm dificuldade de deixar a casa dos pais
08/04/2008 LE MONDE
Marion Van Renterghem
Enviada especial a Nápoles, Itália
A Via Manzoni, em Nápoles, tem o dom de provocar piscadelas zombeteiras dos moradores. O lugar ganhou até mesmo um apelido: "Il parco dell'amore" (o parque do amor). Dia e noite, nesta ampla estrada cavada no paredão rochoso que paira acima da orla, incontáveis carros estacionam entre os pinheiros, dos dois lados da calçada. Os vidros estão encobertos com papel jornal. Vendedores ambulantes oferecem por algumas dezenas de centavos jornais velhos àqueles que teriam se esquecido de trazer estes instrumentos indispensáveis para a preservação da sua intimidade. Isso porque, na Via Manzoni só estacionam os casais apaixonados que não dispõem de nenhum "ninho" aconchegante para ocultarem a sua intimidade. E principalmente aqueles menos endinheirados dentre os "bamboccioni", esses bebês atrasados que, aos 30, 40 anos ou mais, ainda moram na casa dos seus pais. A palavra vem de "bamboccione", que significa "nenezão", "molecão", "bobalhão". Na França, eles são conhecidos sob o nome de "Tanguy", desde o filme de Etienne Chatiliez (2001) cujo herói é um homem jovem chamado Tanguy, dono de uma cultura literária sofisticada. Ele é o filho único de pais abastados de gostos tradicionais e conservadores e que revelam ser pessoas extremamente irritantes. Ainda assim, Tanguy prefere o conforto do domicílio dos pais aos inconvenientes práticos da vida adulta. Tanto na Itália como na Espanha, onde o apego tradicional à família acaba sendo reforçado por uma conjuntura econômica difícil, essas crianças "atrasadas" passaram a ser representativas de um fenômeno de sociedade. "Vocês estão querendo dizer: um flagelo", acrescenta com ar brincalhão a demógrafa Rossella Palomba, do Instituto Italiano de Pesquisas sobre a População (IRPPS).O sentimento de exasperação em relação a esses bamboccioni, que vêm ocupando cada vez mais espaço, se tornou uma questão de Estado. Em outubro de 2007, o ministro da economia, Tommaso Padoa-Schioppa, atreveu-se a se referir a eles com um desdenho oficial. Ele se referia a um projeto de redução de encargos fiscais em favor dos jovens inquilinos de um apartamento: uma medida destinada a ajudar esses trintões que "permanecem com os seus pais, não se casam e nunca se tornam autônomos. "Vamos expulsar os bamboccioni da casa dos seus pais!", declarou o ministro perante o Parlamento.Mamma mia! O comentário desencadeou uma tempestade. Há muito tempo, os italianos haviam se acostumado a tratar na brincadeira os seus "mammoni" (filhinhos da mamãe), puros produtos de uma sociedade dominada pela autoridade da mamma. Para encarná-los, eles tinham até mesmo um ator cômico fetiche, Alberto Sordi, cuja célebre réplica em "Os Boas Vidas ("I Vitelloni"), de Federico Fellini, "A'ma, não chore, eu nunca a abandonarei".Até o dia em que um ministro, de repente, começou a falar de maneira arrogante desses bamboccioni, um diminutivo pejorativo. Nas telas de televisão, na primeira página dos jornais, um sem número de pessoas arriscou-se a dar a sua opinião. Para acusar esses adultos imaturos ou, pelo contrário, para desculpá-los. As vaias eram dirigidas contra os pais ou contra um Estado em crise, onde as crianças não mais dispõem dos meios econômicos para se emancipar! Fabrizio Sinopoli, 33 anos, que segue morando na casa dos seus pais por necessidade, se manifestou com indignação em seu blog disparando para todos os lados. Diante dos fatos, alguns publicitários farejaram uma nova tendência da sociedade: hoje, os muros de Roma estão cobertos por cartazes gigantes com um foto na qual posa um trintão, deitado displicentemente num sofá Confalone.Em seu apartamento moderno com terraço e uma vista espetacular da baía de Nápoles, os Demarco comentam o fenômeno com um ar interessado. Estão ali Marco, o pai, Ornella, a mãe. E Daniele, o filho, 29 anos. É uma família da classe média alta. Marco dirige o jornal diário regional "Corriere del Mezzogiorno"; Ornella trabalha no centro administrativo da universidade. Eles ganham mais de 10.000 euros mensais (cerca de R$ 27.000) com os seus dois salários. E nada de Daniele deixar o lar familiar. Ele prefere "assumir estar morando na casa dos seus pais a fazer com que eles lhe paguem um flat, o que seria uma atitude imatura". Beneficiário de uma bolsa de estudos em filosofia (800 euros - em torno de R$ 2.150 - por mês), ele está concluindo o seu doutorado e preparando um mestrado de jornalismo. Ou seja, ele vem acumulando os diplomas com a esperança de descolar um bom emprego... Só que este nunca aparece. "Quase todos os meus amigos moram na casa dos seus pais", constata Daniele, muito calmamente. "Enquanto você não encontra um verdadeiro emprego, não há como fazer de outra forma".Marco e Ornella estão preocupados com a situação. Esses ex-estudantes da geração de Maio de 68, uma categoria na qual se inclui uma boa parte dos pais de bamboccioni, acabaram culpabilizando a si mesmos. "Nós havíamos sido vítimas do autoritarismo 'à antiga' dos nossos pais", analisa Ornella. "Agora, nós passamos a ser vítimas do autoritarismo dos nossos filhos, que esperam tudo de nós". "Durante os anos 1970", prossegue Marco, "o fato de ser um bamboccione teria sido percebido como uma condição de pequeno-burguês; em caso algum esta pessoa seria vista como um aventureiro, um revolucionário ou alguém revoltado. Os bamboccioni de hoje não são nem de esquerda nem de direita: a rebelião contra a família deixou de existir. Por que eles iriam querer ir embora, enquanto eles têm tudo aquilo de que precisam na casa dos seus pais, as compras de supermercado, alguém para limpar a casa para eles, lavar e passar a sua roupa, uma namorada, além de uma mesada para o lazer?"Educadamente, Daniele manifesta sinais de impaciência enquanto aguarda a sua vez para falar. "Eu tento explicar para o meu pai que aos 18 anos, ele já estava integrado numa estrutura de trabalho. No meu caso, para trabalhar, eu preciso ter 30 anos, além de diplomas".Marco: "É fato também que você mantém até hoje a exigência de manter o nível de vida elevado que lhe foi dado pelo meio no qual você vive. Nunca passou pela sua mente a idéia de viver de modo não tão confortável. Quanto mais você estuda, quanto menos você aceita pequenos trabalhos provisórios. No mundo moderno, globalizado, a força protetora da tradição familiar torna-se um obstáculo a ser superado". Daniele suspira de maneira afetuosa.Marisa e Angelo não enfrentam os mesmos problemas. Ela tem 42 anos, e ele, "mais de 35", conforme diz, aparentando um constrangimento repentino. Ela é professora de curso primário, ele dirige filmes que vende com dificuldades. Eles formam um casal já faz seis anos, mas vivem separadamente por falta de condições para constituírem o seu lar, cada um vivendo na casa dos seus pais aposentados. O pai de Angelo era um operário numa fábrica de tecidos, enquanto o de Marisa era agente hospitalar, ao passo que as mães não trabalhavam.Marisa e Angelo conhecem bem a Via Manzoni e a situação dos vidros do carro cobertos com jornal. Lá onde eles moram, na periferia de Pompéia, há uma rua equivalente. "É muito difícil chegar até lá, de tanto que a área fica engarrafada", comenta Marisa com tristeza. Ela sonha em casar-se com Angelo e deixar a casa da família. Mas Angelo não tem como se sustentar sozinho financeiramente, enquanto ela, com os 1.100 euros (cerca de R$ 3.000) que ganha por mês, passa o seu tempo fazendo contas. Angelo a apresentou aos seus pais, e ela aos dela. "Para os meus pais, está fora de cogitação que ele durma na minha casa, ou eu na dele". De vez em quando, eles dão uma escapulida no fim de semana.Os bamboccioni estão por todo lugar e em todos os meios, nas cidades e nas aldeias. Tanto no Mezzogiorno (região sul) empobrecido quanto nas ricas províncias do norte. Inicialmente, a demógrafa Rossella Palomba havia se mostrado espantada diante da seguinte constatação estatística: em 1987, 46,8% dos italianos entre 20 e 34 anos viviam na casa dos seus pais. Em 1995, a proporção era de 52,3%. Atualmente, ela é de 69,7%. "Trata-se de um crescimento fenomenal", comenta. Em 1999, ao concluir um ano de pesquisa junto a 1.000 pais e 4.500 filhos de 24 a 34 anos, ela redigiu um relatório.A explicação mais evidente para esta tendência é econômica. Segundo o Instituto Italiano de Estatísticas (Istat), dois terços das pessoas ativas de menos de 30 anos que vivem na casa dos seus pais ganham menos de 1.000 euros (cerca de R$ 2.700) por mês. Em primeiro lugar, os bamboccioni são as vítimas do "declínio" italiano, da precariedade do emprego e do custo dos aluguéis. Mais do que nunca, a família constitui um amortecedor social.Contudo, a novidade do fenômeno está no fato de ele estar se produzindo nos meios abastados. Segundo Rossella Palomba, o surgimento de um número cada vez maior de "bebezões", curiosamente pouco tem a ver com a crise econômica. Dos 4.500 filhos que foram recenseados na sua pesquisa, 80% têm um emprego de duração determinada e são corretamente remunerados. Mas eles consideram ainda assim que os seus ganhos são insuficientes: "As suas exigências estão vinculadas ao nível de vida dos seus pais", comenta a pesquisadora. "Eles não suportam o fato de terem de rever para baixo o seu modo de vida". A isso, deve ser acrescentada uma tradição bem italiana: "O único motivo verdadeiro e legítimo para deixar o domicílio dos pais é o fato de casar-se. Ora, a idade média do casamento foi postergada de maneira considerável na Itália: de 28 anos no final dos anos 1990, ela passou para 30 anos atualmente. Trata-se de um círculo vicioso: quanto mais eles ficam na casa da mamma, mais tarde eles se casam. E por mais tempo eles ficam".É assim que Renata Giordano está definhando, num desses apartamentos da grande burguesia napolitana de esplendor decaído, onde as paredes decoradas com quadros de mestres estão amarelando. Aos 36 anos, ela mora na casa da sua mãe idosa, que anda de cadeira de rodas. Quando o seu pai ainda era vivo, ela já era uma bambocciona em tempo integral, uma estudante a perpetuidade, sustentada com casa, comida e roupa lavada pela sua rica família.O sistema universitário italiano não ajuda os bamboccioni a se emanciparem. Os diplomas não podem ser obtidos com um número limitado de anos de estudos, mas sim, apenas passando cerca de trinta exames, cujos créditos podem ser acumulados sem limite de tempo nem de idade. Só faltam dois a Renata para que ela consiga obter o seu mestrado de biologia molecular.De repente, quatro anos atrás, Renata acordou para a sua situação. Ela estava sofrendo de uma overdose de convivência com os seus pais no domicílio. Ela começou a trabalhar duro, a acumular os exames. Mas era tarde demais. A sua mãe, deficiente física, vem lançando mão de todas as artimanhas afetivas para não mais deixá-la ir embora. Ela não consegue imaginar o que fazer para conseguir ganhar 3.000 euros (mais de R$ 8.000) para viver "mais ou menos do que jeito que estou acostumada" e conseguir bancar o aluguel de um apartamento de 50 m2 (800 euros - R$ 2.150). "Eu sou prisioneira", diz Renata, com uma voz falsamente alegre. "A prisão é criada por esta maldita mentalidade italiana. Principalmente aqui, em Nápoles, no Mezzogiorno. Os pais sempre dão um jeito para manter você por perto, na sua casa. Você nem sabe ao certo como isso veio a acontecer, e acaba se encontrando ali, na casa deles, aos 36 anos". Tradução: Jean-Yves de Neufville
Marion Van Renterghem
Enviada especial a Nápoles, Itália
A Via Manzoni, em Nápoles, tem o dom de provocar piscadelas zombeteiras dos moradores. O lugar ganhou até mesmo um apelido: "Il parco dell'amore" (o parque do amor). Dia e noite, nesta ampla estrada cavada no paredão rochoso que paira acima da orla, incontáveis carros estacionam entre os pinheiros, dos dois lados da calçada. Os vidros estão encobertos com papel jornal. Vendedores ambulantes oferecem por algumas dezenas de centavos jornais velhos àqueles que teriam se esquecido de trazer estes instrumentos indispensáveis para a preservação da sua intimidade. Isso porque, na Via Manzoni só estacionam os casais apaixonados que não dispõem de nenhum "ninho" aconchegante para ocultarem a sua intimidade. E principalmente aqueles menos endinheirados dentre os "bamboccioni", esses bebês atrasados que, aos 30, 40 anos ou mais, ainda moram na casa dos seus pais. A palavra vem de "bamboccione", que significa "nenezão", "molecão", "bobalhão". Na França, eles são conhecidos sob o nome de "Tanguy", desde o filme de Etienne Chatiliez (2001) cujo herói é um homem jovem chamado Tanguy, dono de uma cultura literária sofisticada. Ele é o filho único de pais abastados de gostos tradicionais e conservadores e que revelam ser pessoas extremamente irritantes. Ainda assim, Tanguy prefere o conforto do domicílio dos pais aos inconvenientes práticos da vida adulta. Tanto na Itália como na Espanha, onde o apego tradicional à família acaba sendo reforçado por uma conjuntura econômica difícil, essas crianças "atrasadas" passaram a ser representativas de um fenômeno de sociedade. "Vocês estão querendo dizer: um flagelo", acrescenta com ar brincalhão a demógrafa Rossella Palomba, do Instituto Italiano de Pesquisas sobre a População (IRPPS).O sentimento de exasperação em relação a esses bamboccioni, que vêm ocupando cada vez mais espaço, se tornou uma questão de Estado. Em outubro de 2007, o ministro da economia, Tommaso Padoa-Schioppa, atreveu-se a se referir a eles com um desdenho oficial. Ele se referia a um projeto de redução de encargos fiscais em favor dos jovens inquilinos de um apartamento: uma medida destinada a ajudar esses trintões que "permanecem com os seus pais, não se casam e nunca se tornam autônomos. "Vamos expulsar os bamboccioni da casa dos seus pais!", declarou o ministro perante o Parlamento.Mamma mia! O comentário desencadeou uma tempestade. Há muito tempo, os italianos haviam se acostumado a tratar na brincadeira os seus "mammoni" (filhinhos da mamãe), puros produtos de uma sociedade dominada pela autoridade da mamma. Para encarná-los, eles tinham até mesmo um ator cômico fetiche, Alberto Sordi, cuja célebre réplica em "Os Boas Vidas ("I Vitelloni"), de Federico Fellini, "A'ma, não chore, eu nunca a abandonarei".Até o dia em que um ministro, de repente, começou a falar de maneira arrogante desses bamboccioni, um diminutivo pejorativo. Nas telas de televisão, na primeira página dos jornais, um sem número de pessoas arriscou-se a dar a sua opinião. Para acusar esses adultos imaturos ou, pelo contrário, para desculpá-los. As vaias eram dirigidas contra os pais ou contra um Estado em crise, onde as crianças não mais dispõem dos meios econômicos para se emancipar! Fabrizio Sinopoli, 33 anos, que segue morando na casa dos seus pais por necessidade, se manifestou com indignação em seu blog disparando para todos os lados. Diante dos fatos, alguns publicitários farejaram uma nova tendência da sociedade: hoje, os muros de Roma estão cobertos por cartazes gigantes com um foto na qual posa um trintão, deitado displicentemente num sofá Confalone.Em seu apartamento moderno com terraço e uma vista espetacular da baía de Nápoles, os Demarco comentam o fenômeno com um ar interessado. Estão ali Marco, o pai, Ornella, a mãe. E Daniele, o filho, 29 anos. É uma família da classe média alta. Marco dirige o jornal diário regional "Corriere del Mezzogiorno"; Ornella trabalha no centro administrativo da universidade. Eles ganham mais de 10.000 euros mensais (cerca de R$ 27.000) com os seus dois salários. E nada de Daniele deixar o lar familiar. Ele prefere "assumir estar morando na casa dos seus pais a fazer com que eles lhe paguem um flat, o que seria uma atitude imatura". Beneficiário de uma bolsa de estudos em filosofia (800 euros - em torno de R$ 2.150 - por mês), ele está concluindo o seu doutorado e preparando um mestrado de jornalismo. Ou seja, ele vem acumulando os diplomas com a esperança de descolar um bom emprego... Só que este nunca aparece. "Quase todos os meus amigos moram na casa dos seus pais", constata Daniele, muito calmamente. "Enquanto você não encontra um verdadeiro emprego, não há como fazer de outra forma".Marco e Ornella estão preocupados com a situação. Esses ex-estudantes da geração de Maio de 68, uma categoria na qual se inclui uma boa parte dos pais de bamboccioni, acabaram culpabilizando a si mesmos. "Nós havíamos sido vítimas do autoritarismo 'à antiga' dos nossos pais", analisa Ornella. "Agora, nós passamos a ser vítimas do autoritarismo dos nossos filhos, que esperam tudo de nós". "Durante os anos 1970", prossegue Marco, "o fato de ser um bamboccione teria sido percebido como uma condição de pequeno-burguês; em caso algum esta pessoa seria vista como um aventureiro, um revolucionário ou alguém revoltado. Os bamboccioni de hoje não são nem de esquerda nem de direita: a rebelião contra a família deixou de existir. Por que eles iriam querer ir embora, enquanto eles têm tudo aquilo de que precisam na casa dos seus pais, as compras de supermercado, alguém para limpar a casa para eles, lavar e passar a sua roupa, uma namorada, além de uma mesada para o lazer?"Educadamente, Daniele manifesta sinais de impaciência enquanto aguarda a sua vez para falar. "Eu tento explicar para o meu pai que aos 18 anos, ele já estava integrado numa estrutura de trabalho. No meu caso, para trabalhar, eu preciso ter 30 anos, além de diplomas".Marco: "É fato também que você mantém até hoje a exigência de manter o nível de vida elevado que lhe foi dado pelo meio no qual você vive. Nunca passou pela sua mente a idéia de viver de modo não tão confortável. Quanto mais você estuda, quanto menos você aceita pequenos trabalhos provisórios. No mundo moderno, globalizado, a força protetora da tradição familiar torna-se um obstáculo a ser superado". Daniele suspira de maneira afetuosa.Marisa e Angelo não enfrentam os mesmos problemas. Ela tem 42 anos, e ele, "mais de 35", conforme diz, aparentando um constrangimento repentino. Ela é professora de curso primário, ele dirige filmes que vende com dificuldades. Eles formam um casal já faz seis anos, mas vivem separadamente por falta de condições para constituírem o seu lar, cada um vivendo na casa dos seus pais aposentados. O pai de Angelo era um operário numa fábrica de tecidos, enquanto o de Marisa era agente hospitalar, ao passo que as mães não trabalhavam.Marisa e Angelo conhecem bem a Via Manzoni e a situação dos vidros do carro cobertos com jornal. Lá onde eles moram, na periferia de Pompéia, há uma rua equivalente. "É muito difícil chegar até lá, de tanto que a área fica engarrafada", comenta Marisa com tristeza. Ela sonha em casar-se com Angelo e deixar a casa da família. Mas Angelo não tem como se sustentar sozinho financeiramente, enquanto ela, com os 1.100 euros (cerca de R$ 3.000) que ganha por mês, passa o seu tempo fazendo contas. Angelo a apresentou aos seus pais, e ela aos dela. "Para os meus pais, está fora de cogitação que ele durma na minha casa, ou eu na dele". De vez em quando, eles dão uma escapulida no fim de semana.Os bamboccioni estão por todo lugar e em todos os meios, nas cidades e nas aldeias. Tanto no Mezzogiorno (região sul) empobrecido quanto nas ricas províncias do norte. Inicialmente, a demógrafa Rossella Palomba havia se mostrado espantada diante da seguinte constatação estatística: em 1987, 46,8% dos italianos entre 20 e 34 anos viviam na casa dos seus pais. Em 1995, a proporção era de 52,3%. Atualmente, ela é de 69,7%. "Trata-se de um crescimento fenomenal", comenta. Em 1999, ao concluir um ano de pesquisa junto a 1.000 pais e 4.500 filhos de 24 a 34 anos, ela redigiu um relatório.A explicação mais evidente para esta tendência é econômica. Segundo o Instituto Italiano de Estatísticas (Istat), dois terços das pessoas ativas de menos de 30 anos que vivem na casa dos seus pais ganham menos de 1.000 euros (cerca de R$ 2.700) por mês. Em primeiro lugar, os bamboccioni são as vítimas do "declínio" italiano, da precariedade do emprego e do custo dos aluguéis. Mais do que nunca, a família constitui um amortecedor social.Contudo, a novidade do fenômeno está no fato de ele estar se produzindo nos meios abastados. Segundo Rossella Palomba, o surgimento de um número cada vez maior de "bebezões", curiosamente pouco tem a ver com a crise econômica. Dos 4.500 filhos que foram recenseados na sua pesquisa, 80% têm um emprego de duração determinada e são corretamente remunerados. Mas eles consideram ainda assim que os seus ganhos são insuficientes: "As suas exigências estão vinculadas ao nível de vida dos seus pais", comenta a pesquisadora. "Eles não suportam o fato de terem de rever para baixo o seu modo de vida". A isso, deve ser acrescentada uma tradição bem italiana: "O único motivo verdadeiro e legítimo para deixar o domicílio dos pais é o fato de casar-se. Ora, a idade média do casamento foi postergada de maneira considerável na Itália: de 28 anos no final dos anos 1990, ela passou para 30 anos atualmente. Trata-se de um círculo vicioso: quanto mais eles ficam na casa da mamma, mais tarde eles se casam. E por mais tempo eles ficam".É assim que Renata Giordano está definhando, num desses apartamentos da grande burguesia napolitana de esplendor decaído, onde as paredes decoradas com quadros de mestres estão amarelando. Aos 36 anos, ela mora na casa da sua mãe idosa, que anda de cadeira de rodas. Quando o seu pai ainda era vivo, ela já era uma bambocciona em tempo integral, uma estudante a perpetuidade, sustentada com casa, comida e roupa lavada pela sua rica família.O sistema universitário italiano não ajuda os bamboccioni a se emanciparem. Os diplomas não podem ser obtidos com um número limitado de anos de estudos, mas sim, apenas passando cerca de trinta exames, cujos créditos podem ser acumulados sem limite de tempo nem de idade. Só faltam dois a Renata para que ela consiga obter o seu mestrado de biologia molecular.De repente, quatro anos atrás, Renata acordou para a sua situação. Ela estava sofrendo de uma overdose de convivência com os seus pais no domicílio. Ela começou a trabalhar duro, a acumular os exames. Mas era tarde demais. A sua mãe, deficiente física, vem lançando mão de todas as artimanhas afetivas para não mais deixá-la ir embora. Ela não consegue imaginar o que fazer para conseguir ganhar 3.000 euros (mais de R$ 8.000) para viver "mais ou menos do que jeito que estou acostumada" e conseguir bancar o aluguel de um apartamento de 50 m2 (800 euros - R$ 2.150). "Eu sou prisioneira", diz Renata, com uma voz falsamente alegre. "A prisão é criada por esta maldita mentalidade italiana. Principalmente aqui, em Nápoles, no Mezzogiorno. Os pais sempre dão um jeito para manter você por perto, na sua casa. Você nem sabe ao certo como isso veio a acontecer, e acaba se encontrando ali, na casa deles, aos 36 anos". Tradução: Jean-Yves de Neufville
quinta-feira, 20 de março de 2008
Obama e o pecado original americano

Caros alunos:
Quando Obama afirma que a raiva dos negros é legítima, penso nos negros de nosso país e sua postura tão dócil e polida... Veja o texto do Herald Tribune:
Apartheid, Barack Obama e o pecado original americano
Roger Cohen
*Do The International Herald Tribune, em Nova York
Há coisas em que você passa a acreditar e coisas que carrega em seu sangue. No meu caso, tendo passado parte da minha infância no apartheid da África do Sul, eu carrego minha dose de vergonha.Na infância, a experiência não tem palavras mas não é menos poderosa por isso. Quão vasta, quão reluzente, era a praia de Muizenberg, perto da Cidade do Cabo, com toda aquela pele branca brilhante espalhada pela areia dourada!Os negros esqueléticos estavam em outro lugar, nadando além das rochas em um porto imundo, que eu assistia da janela da casa do meu avô e me espantava.Certa vez, uma babá negra me levou até o outro lado da rua até um parapeito acima dos trilhos ferroviários, ao lado daquele porto e me segurou sobre ele. "Você não ia querer que eu soltasse você", ela disse.O medo que senti permaneceu. Há poucos anos eu voltei para medir qual teria sido a altura da queda. Na memória, o abismo tinha uns 30 metros. Na verdade, era uma queda de 3 metros. Essa discrepância mede o pânico de criança.Uma placa de "Á Venda" se encontrava naquela que tinha sido a casa da família. Eu perguntei se podia visitá-la e recebi uma recusa grosseira, mas não antes de ter vislumbrado a montanha atrás, onde meu pai gostava de caminhar e onde eu temia as cobras entre os arbustos espinhosos.O medo, tão obscuro quanto os tubarões além das redes em Muizenberg, nunca esteve ausente de nossas temporadas africanas iluminadas pelo sol. O meu se formou a partir da desorientação: eu não exatamente fazia parte do sistema porque meus pais emigraram de Johannesburgo para o Reino Unido. Então, nos retornos para visita, eu entrava no toalete público apenas para negros ou me sentava no banco apenas para negros.Só para negros -e eu era branco. O apartheid entrou na minha consciência como uma espécie de auto-humilhação. As mulheres negras que me davam banho quando pequeno podiam tocar minha pele, mas o mundo delas era intocável.Apenas posteriormente a crueldade do sistema ganhou foco. Eu vejo homens brancos, com bafo de álcool, com carne vermelha em seus pratos, sob os jacarandás de Johannesburgo, desprezando a possibilidade de alguma vez desejarem uma mulher negra.Estas lembranças foram trazidas de volta pelo discurso pioneiro de Barack Obama nesta semana sobre raça. A escravidão foi de fato o "pecado original" dos Estados Unidos. É claro, "o legado brutal da escravidão e Jim Crow" persiste em formas de humilhação dos afro-americanos e revolta que ardem de formas incomunicáveis aos brancos.A segregação colocou os negros americanos no equivalente dos Estados Unidos àquele porto africano imundo.É preciso coragem para navegar nestes lugares onde a ferida é profunda, incompreensão a regra, assim como é preciso coragem para dizer, como fez Obama, que para os negros a "raiva é real; é poderosa; e simplesmente desejar que desapareça, sem entendimento de suas raízes, apenas serve para expandir o abismo de incompreensão que existe entre as raças".O progresso desde o movimento dos direitos civis, ou desde o fim do apartheid, aliviou as feridas de raça, mas não as fechou. Carregar minha parte de vergonha significa também carregar uma pista para os abismos silenciosos de rancor para os quais Obama apontou com palavras.Eu entendo a raiva de seu antigo pastor, o reverendo Jeremiah Wright, por mais odiosa que seja como a forma que a expressou. Eu admiro Obama por ter dito: "Não posso repudiá-lo mais do que posso repudiar a comunidade negra".Honestidade parece um elixir no momento. Por oito anos nós vivemos com as fórmulas áridas, nós contra eles, da mente inferior de Bush, que o resultado desta exploração cheia de nuances do assunto mais difícil da América se torna quase eufórico. Será que um ser humano, como Wright, ou como a avó de Obama, é de fato habitado por ambigüidades?Sim. Pode.A transição inimaginável na África do Sul, quase sem derramamento de sangue, que Nelson Mandela tornou possível é um lembrete de que liderança importa e palavras importam. O clamor nos Estados Unidos no momento por uma presidência que eleve em vez de humilhar é um reflexo do deserto intelectual e de oratória dos anos Bush.Hillary Clinton disse em janeiro que: "Você faz campanha com poesia, mas governa com prosa". Errado. Os Estados Unidos já estão cheios do prosaico.O impensável pode ocorrer. Quando era adolescente, meus parentes me aconselharam a curtir as piscinas que pontilhavam o subúrbio de Houghton, em Johannesburgo, porque "no próximo ano elas estarão vermelhas de sangue".Mas o banho de sangue inevitável nunca ocorreu. Mandela saiu da prisão em 1990 e buscou reconciliação, não vingança. Posteriormente Mandela diria: "Sempre parece impossível até que seja feito".Como incontáveis outros, eu vim para os Estados Unidos porque as possibilidades são maiores aqui do que nas fronteiras mais estreitas da Europa. Talvez seja meu "pecado original" africano, mas quando Obama diz que "eu nunca esquecerei que em nenhum outro país na Terra minha história seria possível", eu sinto o medo desaparecer, como um pesadelo recuando diante da idéia ainda instigante de que "dentre muitos, nós somos verdadeiramente um".
*Roger Cohen é editor-geral do "The International Herald Tribune". Os leitores são convidados a comentar em seu blog: www.iht.com/passages
Tradução: George El Khouri Andolfato
Lembrança e esquecimento
São Paulo, quinta-feira, 20 de março de 2008
Folha de São PauloOutras idéias -
Dulce Critelli
"Como é antigo o passado recente!" Gostaria que a frase fosse minha, mas ela é de Nelson Rodrigues numa crônica de "A Menina sem Estrela".Também fico perplexa com esse fenômeno rápido e turbulento que é o tempo da vida. Não são poucas as vezes em que me volto para algum acontecimento acreditando que ele ainda é atual e descubro que ele faz parte do passado para outros. Um exemplo é quando, em sala de aula, refiro-me a eventos que se passaram nos anos 70 e meus alunos me olham como se eu falasse da Idade Média... E eu nem contei para eles que andei de bonde!A distância entre nós não é apenas uma questão de gerações. Eles nasceram em um mundo já transformado pela tecnologia e pela informática. Uma transformação que começou nos anos 50 e que não nos trouxe somente mais eletrodomésticos e aparelhos digitais. Ela instalou uma transformação radical do nosso modo de vida. Mudou o mundo e mudou o jeito de viver. Mudou o jeito de namorar, de vestir, de procurar emprego, de andar na rua e de se locomover pela cidade. Mudou o corpo. Mudou o jeito de escrever, de estudar, de morar e de se divertir. Mudou o valor da vida, do dinheiro e das pessoas...Outros tempos. E, quando um jeito de viver muda, ele não tem volta. Não se pode ter a experiência dele nunca mais. Por isso, meus alunos e eu só podemos compartilhar o tempo atual. Não podemos compartilhar um tempo que, para eles, é passado, mas, para mim, ainda é presente.Os fatos de 30 anos atrás não são passado na minha vida. Para mim, meu passado não passou e minha história não envelhece. Minha memória pode alcançar os acontecimentos que vivi a qualquer momento, e posso revivê-los como se ocorressem agora. Mas, se eu os narrar, quem me ouve não pode, como eu, vivenciá-los. Por isso, para meus alunos, são contos o que para mim é vida.Mas é assim que corre o rio da vida dos homens, transformando em palavras o que hoje é ação. Se não forem narrados, os acontecimentos e os nossos feitos passam sem deixar rastros. Faladas ou escritas, são as palavras que salvam o já vivido e o conservam entre nós. Salvam os feitos e os acontecimentos da sua total desintegração no esquecimento.A memória do já vivido e a sua narração numa história é o que possibilita a construção da História e das nossas histórias pessoais. Só os feitos e os acontecimentos narrados em histórias são capazes de salvaguardar nossa existência e nossa identidade.Só conservados pela lembrança é que os feitos e os acontecimentos podem entrar no tempo e fazer parte de um passado. Recente ou antigo.
DULCE CRITELLI, terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP, é autora de "Educação e Dominação Cultural" e "Analítica de Sentido" e coordenadora do Existentia -Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana
Folha de São PauloOutras idéias -
Dulce Critelli
"Como é antigo o passado recente!" Gostaria que a frase fosse minha, mas ela é de Nelson Rodrigues numa crônica de "A Menina sem Estrela".Também fico perplexa com esse fenômeno rápido e turbulento que é o tempo da vida. Não são poucas as vezes em que me volto para algum acontecimento acreditando que ele ainda é atual e descubro que ele faz parte do passado para outros. Um exemplo é quando, em sala de aula, refiro-me a eventos que se passaram nos anos 70 e meus alunos me olham como se eu falasse da Idade Média... E eu nem contei para eles que andei de bonde!A distância entre nós não é apenas uma questão de gerações. Eles nasceram em um mundo já transformado pela tecnologia e pela informática. Uma transformação que começou nos anos 50 e que não nos trouxe somente mais eletrodomésticos e aparelhos digitais. Ela instalou uma transformação radical do nosso modo de vida. Mudou o mundo e mudou o jeito de viver. Mudou o jeito de namorar, de vestir, de procurar emprego, de andar na rua e de se locomover pela cidade. Mudou o corpo. Mudou o jeito de escrever, de estudar, de morar e de se divertir. Mudou o valor da vida, do dinheiro e das pessoas...Outros tempos. E, quando um jeito de viver muda, ele não tem volta. Não se pode ter a experiência dele nunca mais. Por isso, meus alunos e eu só podemos compartilhar o tempo atual. Não podemos compartilhar um tempo que, para eles, é passado, mas, para mim, ainda é presente.Os fatos de 30 anos atrás não são passado na minha vida. Para mim, meu passado não passou e minha história não envelhece. Minha memória pode alcançar os acontecimentos que vivi a qualquer momento, e posso revivê-los como se ocorressem agora. Mas, se eu os narrar, quem me ouve não pode, como eu, vivenciá-los. Por isso, para meus alunos, são contos o que para mim é vida.Mas é assim que corre o rio da vida dos homens, transformando em palavras o que hoje é ação. Se não forem narrados, os acontecimentos e os nossos feitos passam sem deixar rastros. Faladas ou escritas, são as palavras que salvam o já vivido e o conservam entre nós. Salvam os feitos e os acontecimentos da sua total desintegração no esquecimento.A memória do já vivido e a sua narração numa história é o que possibilita a construção da História e das nossas histórias pessoais. Só os feitos e os acontecimentos narrados em histórias são capazes de salvaguardar nossa existência e nossa identidade.Só conservados pela lembrança é que os feitos e os acontecimentos podem entrar no tempo e fazer parte de um passado. Recente ou antigo.
DULCE CRITELLI, terapeuta existencial e professora de filosofia da PUC-SP, é autora de "Educação e Dominação Cultural" e "Analítica de Sentido" e coordenadora do Existentia -Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana
quinta-feira, 6 de março de 2008
Rambo
CONTARDO CALLIGARIS
Os filmes de Rambo retratam as variações do espírito americano nos últimos 25 anos
"RAMBO 4" está em cartaz no Brasil desde a sexta-feira passada.Assisti ao filme mais de um mês atrás, no dia de sua estréia nos Estados Unidos. Foi numa sala do cinema AMC, na rua 42, em Nova York, e o espetáculo era mais na platéia do que na tela: já durante as propagandas e os trailers, surgiam gritos que queriam apressar a chegada do guerreiro: "Rambooo!!". É fácil entender por que John Rambo é um herói popular: ele é um concentrado dos devaneios do indivíduo ocidental. É o pistoleiro de "Gatilho Relâmpago": ninguém imagina quem ele é e do que ele é capaz (parecemos inócuos pais de família, mas somos tigres adormecidos, viu? Não cutuque). É Shane, o andarilho misterioso de "Os Brutos Também Amam" (e de seu remake "O Cavaleiro Solitário"), que chega, faz justiça e vai embora ferido, levando consigo o coração de mulheres e crianças. É o delegado de "Matar ou Morrer", que, sozinho ou quase, enfrenta a todos. E é também, desde o primeiro filme da série, um homem à procura de um pai. Que mais poderíamos querer da vida? Claro, Rambo é execrado por quem gostaria que nosso repertório de sonhos fosse diferente. Além disso, os filmes de Rambo são, no mínimo, desiguais. Mas não quero falar nem da qualidade cinematográfica dos filmes nem da relação de Rambo com o protótipo do herói promovido pelo western hollywoodiano. Há um outro aspecto da série que me interessa mais: os filmes de Rambo traçam um retrato das variações de um estado de espírito dos norte-americanos nos últimos 25 anos. O primeiro, "First Blood" (primeiro sangue, mas, no Brasil, o título foi "Rambo"), de 1982 (inspirado num romance de 1972), expressava perfeitamente o conflito de uma nação que passava da oposição contra a guerra no Vietnã, nos anos 70, à sensação culpada de ter traído seus próprios soldados. O segundo, de 1985, era a conseqüência imediata do primeiro: o resgate dos hipotéticos prisioneiros da mesma guerra lavava, enfim, a honra nacional. Poucos anos mais tarde, o sucesso do musical "Miss Saigon" confirmava essa peripécia espiritual: a vergonha de uma guerra impopular era substituída pela vergonha de ter abandonado amigos, aliados, presos e (essa era a novidade do musical) as crianças nascidas dos amores de guerra. No terceiro, de 1988, Rambo já desistira de guerrear. Ele só ia à luta, no Afeganistão ocupado pelos soviéticos, para salvar o coronel Trautman, seu mentor. Mesmo na Guerra Fria "tradicional", em suma, só vale a pena lutarmos se for para defender os "nossos", ou seja, os mais próximos. Hoje, o quarto (e último, imagino) filme de Rambo é uma espécie de conclusão lógica: intervir, meter-se na casa dos outros é impossível. Os missionários, com Bíblias e remédios, não mudam nada no horror que eles visitam. No melhor dos casos, eles satisfazem sua própria consciência culpada; no pior, eles acabam mortos. A força tampouco muda nada, ela deixa mais um rastro de sangue, e as coisas continuam iguais. Só resta voltar para casa. No meio da atual aventura iraquiana, que não tem saída em vista e produziu, como efeito, a substituição de um horror por outro, a derradeira aventura de Rambo completa uma longa argumentação pelo isolacionismo -que é uma antiga tentação americana, crescente desde a Guerra do Vietnã. É possível que uma vitória dos democratas nas eleições presidenciais de novembro leve os EUA a adotar a escolha final de Rambo. Seria um alívio? Pode ser. Mas talvez seja mais sábio ficar com um "veremos". Afinal, não sabemos como seria o mundo sem o intervencionismo americano. Na semana passada, também estreou "Jogos de Poder", de Mike Nichols. O filme narra a história verídica (e, aliás, francamente engraçada) de como se decidiu e se tornou possível a ajuda dos EUA à resistência mujahidin contra a ocupação soviética, nos anos 80. Considerando que adotamos facilmente um estilo paranóico na interpretação das decisões políticas (ou seja, imaginamos conclaves sofisticados e maquiavélicos), o filme é, ao mesmo tempo, salutar e inquietante. Saí da sala com esta impressão: no caso, aparecem duas diferenças básicas entre uma improvisação dos Parlapatões e a suposta "decisão estratégica" do governo dos EUA: 1) O espaço dos Parlapatões é na praça Roosevelt, e o governo dos EUA está em Washington; 2) Os Parlapatões têm muito menos dinheiro do que os EUA.
São Paulo, quinta-feira, 06 de março de 2008 - Folha Ilustrada
Os filmes de Rambo retratam as variações do espírito americano nos últimos 25 anos
"RAMBO 4" está em cartaz no Brasil desde a sexta-feira passada.Assisti ao filme mais de um mês atrás, no dia de sua estréia nos Estados Unidos. Foi numa sala do cinema AMC, na rua 42, em Nova York, e o espetáculo era mais na platéia do que na tela: já durante as propagandas e os trailers, surgiam gritos que queriam apressar a chegada do guerreiro: "Rambooo!!". É fácil entender por que John Rambo é um herói popular: ele é um concentrado dos devaneios do indivíduo ocidental. É o pistoleiro de "Gatilho Relâmpago": ninguém imagina quem ele é e do que ele é capaz (parecemos inócuos pais de família, mas somos tigres adormecidos, viu? Não cutuque). É Shane, o andarilho misterioso de "Os Brutos Também Amam" (e de seu remake "O Cavaleiro Solitário"), que chega, faz justiça e vai embora ferido, levando consigo o coração de mulheres e crianças. É o delegado de "Matar ou Morrer", que, sozinho ou quase, enfrenta a todos. E é também, desde o primeiro filme da série, um homem à procura de um pai. Que mais poderíamos querer da vida? Claro, Rambo é execrado por quem gostaria que nosso repertório de sonhos fosse diferente. Além disso, os filmes de Rambo são, no mínimo, desiguais. Mas não quero falar nem da qualidade cinematográfica dos filmes nem da relação de Rambo com o protótipo do herói promovido pelo western hollywoodiano. Há um outro aspecto da série que me interessa mais: os filmes de Rambo traçam um retrato das variações de um estado de espírito dos norte-americanos nos últimos 25 anos. O primeiro, "First Blood" (primeiro sangue, mas, no Brasil, o título foi "Rambo"), de 1982 (inspirado num romance de 1972), expressava perfeitamente o conflito de uma nação que passava da oposição contra a guerra no Vietnã, nos anos 70, à sensação culpada de ter traído seus próprios soldados. O segundo, de 1985, era a conseqüência imediata do primeiro: o resgate dos hipotéticos prisioneiros da mesma guerra lavava, enfim, a honra nacional. Poucos anos mais tarde, o sucesso do musical "Miss Saigon" confirmava essa peripécia espiritual: a vergonha de uma guerra impopular era substituída pela vergonha de ter abandonado amigos, aliados, presos e (essa era a novidade do musical) as crianças nascidas dos amores de guerra. No terceiro, de 1988, Rambo já desistira de guerrear. Ele só ia à luta, no Afeganistão ocupado pelos soviéticos, para salvar o coronel Trautman, seu mentor. Mesmo na Guerra Fria "tradicional", em suma, só vale a pena lutarmos se for para defender os "nossos", ou seja, os mais próximos. Hoje, o quarto (e último, imagino) filme de Rambo é uma espécie de conclusão lógica: intervir, meter-se na casa dos outros é impossível. Os missionários, com Bíblias e remédios, não mudam nada no horror que eles visitam. No melhor dos casos, eles satisfazem sua própria consciência culpada; no pior, eles acabam mortos. A força tampouco muda nada, ela deixa mais um rastro de sangue, e as coisas continuam iguais. Só resta voltar para casa. No meio da atual aventura iraquiana, que não tem saída em vista e produziu, como efeito, a substituição de um horror por outro, a derradeira aventura de Rambo completa uma longa argumentação pelo isolacionismo -que é uma antiga tentação americana, crescente desde a Guerra do Vietnã. É possível que uma vitória dos democratas nas eleições presidenciais de novembro leve os EUA a adotar a escolha final de Rambo. Seria um alívio? Pode ser. Mas talvez seja mais sábio ficar com um "veremos". Afinal, não sabemos como seria o mundo sem o intervencionismo americano. Na semana passada, também estreou "Jogos de Poder", de Mike Nichols. O filme narra a história verídica (e, aliás, francamente engraçada) de como se decidiu e se tornou possível a ajuda dos EUA à resistência mujahidin contra a ocupação soviética, nos anos 80. Considerando que adotamos facilmente um estilo paranóico na interpretação das decisões políticas (ou seja, imaginamos conclaves sofisticados e maquiavélicos), o filme é, ao mesmo tempo, salutar e inquietante. Saí da sala com esta impressão: no caso, aparecem duas diferenças básicas entre uma improvisação dos Parlapatões e a suposta "decisão estratégica" do governo dos EUA: 1) O espaço dos Parlapatões é na praça Roosevelt, e o governo dos EUA está em Washington; 2) Os Parlapatões têm muito menos dinheiro do que os EUA.
São Paulo, quinta-feira, 06 de março de 2008 - Folha Ilustrada
terça-feira, 4 de março de 2008
Bem vindos alunos e alunas de 2008!

Como vão?
Sintam-se à vontade para usar esse blog. Leiam os arquivos postados pela turma anterior. Comentem. Participem. Se quiserem compartilhar comigo a autoria do blog, postando também suas próprias matérias, basta solicitar pelo e-mail bido@fmu.br. Eu lhe enviarei um convite e as orientações para tanto.
Ao clicar sobre arquivos de texto e material de aula, será solicitada uma senha. Digite bidopsicosocial.
Divirtam-se!
Bido
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
O que é uma resenha bibliográfica?
Resenha ou análise bibliográfica é uma síntese ou um comentário dos livros publicados feito em revistas especializadas das várias áreas da ciência, das artes e da filosofia.
As resenhas têm papel importante na vida científica de qualquer estudante e dos especialistas, pois é através delas que se toma conhecimento prévio do conteúdo e do valor de um livro que acaba de ser publicado, fundando-se nesta informação a decisão de se ler o livro ou não, seja para o estudo seja para um trabalho em particular.
Uma resenha pode ser puramente informativa, quando apenas expõe o conteúdo do texto, é critica quando se manifesta sobre o valor e o alcance do texto analisado; é critico-informativa quando expõe o conteúdo e tece comentários sobre o texto analisado.
A resenha estrutura-se em várias partes lógico-redacionais. Abre-se com um cabeçalho, no qual são transcritos os dados bibliográficos completos da publicação resenhada; uma pequena informação sobre o autor do texto, dispensável se o autor for muito conhecido; uma exposição sintética do conteúdo do texto, de acordo com a análise temática, destacando o assunto, os objetivos, a idéia central, os principais passos do raciocínio do autor. Finalmente deve conter um comentário crítico. Trata-se da avaliação que o resenhista faz do texto que leu e sintetizou.
Essa avaliação crítica pode assinalar tanto os aspectos positivos quanto os negativos do mesmo. Assim, pode-se destacar a contribuição que o texto traz para determinados setores da cultura, sua qualidade científica, literária ou filosófica, sua originalidade etc; negativamente, pode-se explicar as falhas, incoerências e limitações do texto.
Esse comentário é normalmente feito como último momento da resenha, após a exposição do conteúdo. Mas pode ser distribuído difusamente, junto com os momentos anteriores: expõe-se e comenta-se simultaneamente as idéias do autor.
As críticas devem ser dirigidas às idéias e posições do autor, nunca a sua pessoa ou às suas condições pessoais de existência.
Quem é criticado é o pensador/ autor e suas idéias, e não a pessoa humana que as elabora.
É sempre bom contextuar a obra a ser analisada, no âmbito do pensamento do autor, relacionando-a com seus outros trabalhos e com as condições gerais da cultura da área, na época de sua produção.
Na medida em que o resenhista expõe e aprecia as idéias do autor, ele estabelece um diálogo com os mesmos. Nesse sentido, o resenhista pode até mesmo expor suas próprias idéias, defendendo seus pontos de vista, coincidentes ou não com aqueles do autor resenhado.
Bibliografia:
SEVERINO, Antonio J. Metodologia do Trabalho Científico, 22 Ed.rev. e ampl. de acordo com a ABNT, São Paulo: Editora Cortez, p.131 - 132, 2002.
As resenhas têm papel importante na vida científica de qualquer estudante e dos especialistas, pois é através delas que se toma conhecimento prévio do conteúdo e do valor de um livro que acaba de ser publicado, fundando-se nesta informação a decisão de se ler o livro ou não, seja para o estudo seja para um trabalho em particular.
Uma resenha pode ser puramente informativa, quando apenas expõe o conteúdo do texto, é critica quando se manifesta sobre o valor e o alcance do texto analisado; é critico-informativa quando expõe o conteúdo e tece comentários sobre o texto analisado.
A resenha estrutura-se em várias partes lógico-redacionais. Abre-se com um cabeçalho, no qual são transcritos os dados bibliográficos completos da publicação resenhada; uma pequena informação sobre o autor do texto, dispensável se o autor for muito conhecido; uma exposição sintética do conteúdo do texto, de acordo com a análise temática, destacando o assunto, os objetivos, a idéia central, os principais passos do raciocínio do autor. Finalmente deve conter um comentário crítico. Trata-se da avaliação que o resenhista faz do texto que leu e sintetizou.
Essa avaliação crítica pode assinalar tanto os aspectos positivos quanto os negativos do mesmo. Assim, pode-se destacar a contribuição que o texto traz para determinados setores da cultura, sua qualidade científica, literária ou filosófica, sua originalidade etc; negativamente, pode-se explicar as falhas, incoerências e limitações do texto.
Esse comentário é normalmente feito como último momento da resenha, após a exposição do conteúdo. Mas pode ser distribuído difusamente, junto com os momentos anteriores: expõe-se e comenta-se simultaneamente as idéias do autor.
As críticas devem ser dirigidas às idéias e posições do autor, nunca a sua pessoa ou às suas condições pessoais de existência.
Quem é criticado é o pensador/ autor e suas idéias, e não a pessoa humana que as elabora.
É sempre bom contextuar a obra a ser analisada, no âmbito do pensamento do autor, relacionando-a com seus outros trabalhos e com as condições gerais da cultura da área, na época de sua produção.
Na medida em que o resenhista expõe e aprecia as idéias do autor, ele estabelece um diálogo com os mesmos. Nesse sentido, o resenhista pode até mesmo expor suas próprias idéias, defendendo seus pontos de vista, coincidentes ou não com aqueles do autor resenhado.
Bibliografia:
SEVERINO, Antonio J. Metodologia do Trabalho Científico, 22 Ed.rev. e ampl. de acordo com a ABNT, São Paulo: Editora Cortez, p.131 - 132, 2002.
Contribuição da Dina
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
As mudanças que têm caracterizado o mundo atual
Para podermos desenvolver um projeto, seja ele de vida, profissional ou social, é necessário, em primeiro lugar, refletir sobre as mudanças que têm caracterizado o mundo atual.
Segundo J. Delors:
“a humanidade entrou num período de mudanças cuja amplitude, profundidade e, sobretudo, rapidez, provavelmente nunca tiveram um equivalente na história. A internacionalização da vida das sociedades nacionais, o fenômeno da mundialização, os problemas do meio ambiente, as tensões e os conflitos de um novo tipo, bem como a generalização de certas normas e de certos comportamentos culturais que entram em conflito com os valores tradicionais, os problemas éticos cada vez mais complexos, dos quais nem os indivíduos nem as sociedades podem escapar, são alguns dos fatos relevantes da nossa época.”

Em outras palavras, estamos passando por uma crise de paradigmas, que se reflete em todos os setores, trazendo vários desafios pessoais e profissionais.
“a humanidade entrou num período de mudanças cuja amplitude, profundidade e, sobretudo, rapidez, provavelmente nunca tiveram um equivalente na história. A internacionalização da vida das sociedades nacionais, o fenômeno da mundialização, os problemas do meio ambiente, as tensões e os conflitos de um novo tipo, bem como a generalização de certas normas e de certos comportamentos culturais que entram em conflito com os valores tradicionais, os problemas éticos cada vez mais complexos, dos quais nem os indivíduos nem as sociedades podem escapar, são alguns dos fatos relevantes da nossa época.”

Em outras palavras, estamos passando por uma crise de paradigmas, que se reflete em todos os setores, trazendo vários desafios pessoais e profissionais.
(Contribuição da Dina)
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
Como nascem os paradigmas

"É MAIS FÁCIL DESINTEGRAR UM ÁTOMO DO QUE UM PRECONCEITO".
Albert Einstein
Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro puseram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água fria nos que estavam no chão. Depois de um tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. Passado mais algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação. Então, os cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de algumas surras, o novo integrante do grupo não mais subia a escada. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Um terceiro foi trocado, e repetiu-se o fato. Um quarto e, finalmente, o último dos veteranos foi substituído. Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: "Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui..."
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
Sobre o filme "Tropa de Elite"

CONTARDO CALLIGARIS
"Tropa de Elite"
"Nóis goza", mas "nóis sofre" de culpa: somos desculpados de nossa inércia pela culpa
NA SEXTA passada, "Tropa de Elite", de José Padilha, estreou em São Paulo e no Rio; amanhã, entrará em cartaz no resto do país. O filme é inspirado no livro "Elite da Tropa" (Objetiva), de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (os dois últimos são policiais).Padilha nos apresenta um momento de crise na vida do capitão Nascimento (o ótimo Wagner Moura), do Batalhão de Operações Policiais Especiais da PM do Rio. Além do combate entre as forças da ordem e os bandidos do tráfico, há quatro eixos de tensão: a oposição entre o Bope (um pequeno corpo de incorruptíveis treinados para a guerra) e um sistema policial inepto e corrupto; o conflito entre a vida de família do capitão, que vai ser pai, e, do outro lado, a brutalidade de sua tarefa; a luta do capitão contra o desgaste e os efeitos traumáticos de seu dia-a-dia; o embate entre a polícia e os próprios cidadãos de quem ela deveria defender a vida, a tranqüilidade e as posses. Para cada um desses eixos, qualquer cinéfilo poderia evocar vários filmes memoráveis, sobretudo americanos. Mas o embate entre a polícia e os cidadãos que ela defende revela, no filme de Padilha, uma especificidade nacional: nas classes privilegiadas e supostamente "ordeiras", a simpatia pelo crime e a antipatia pela polícia não são efeito, como de costume, de rebeldia e sede de aventuras. Elas nascem de um forte e difuso sentimento de culpa social ou, no mínimo, justificam-se por ele. Mas vamos com calma. Em "Tropa de Elite", o cineasta José Padilha conseguiu, de maneira admirável, suspender o julgamento e apresentar nossa "guerra" cotidiana como um incômodo dilema moral, sem tomar partido. Para alguns, essa suspensão do julgamento valeu como uma negação da culpa social que, aparentemente, segundo eles, deveria orientar nossa compreensão do mundo. Com isso, o filme foi acusado de "idealizar" o Bope e de fazer uma apologia "fascista" do "Estado policial" e da tortura instituída. Essas críticas são descabidas, mas resta a pergunta: será que não é perigoso calar nossa culpa social? Será que a culpa diante da injustiça não é justamente o que nos levaria a entendê-la melhor e a agir? Pois é, nada disso. Respondo: 1) Em regra, a culpa não produz ação, mas descarrego. Funciona da seguinte maneira: somos autorizados a fazer pouco ou nada para que a situação mude porque o sofrimento de nossa consciência nos absolve. Inversão da frase de José Simão: "nóis goza" de muitos privilégios, mas "nóis sofre" de muita culpa. Somos desculpados de nossa inércia pela culpa que sentimos. 2) Também em regra, a culpa é péssima conselheira. Ela induz a acreditar numa contabilidade estapafúrdia, pela qual há cidadãos que devem e outros aos quais é devido, sem a mediação de lei alguma. Assim, Ferréz, na Folha da segunda passada, pode achar que o relógio roubado de Luciano Huck "paga" a miséria de seus assaltantes. Ele se expressa como se a lei não fosse (não devesse ser) a referência comum para todos: o problema não é que assaltar é crime, Huck é culpado e devedor, e o "correria" cobra o devido. Essa maneira de entender o social oferece a todos uma compensação substancial: se a lei não é a referência comum, podemos ser assaltados nos faróis, mas também podemos praticar cada tipo de mediocridade moral e de ilegalidade, sonegar, saquear o bem público, pagar salários de esmola e por aí vai. Em agosto, uma versão inacabada de "Tropa de Elite" foi distribuída ilegalmente em DVD, de camelô em camelô, pelo país afora. Nessa ocasião, houve vozes para justificar a pirataria e racionalizar um desrespeito endêmico à lei. Havia o estilo "eu não serei o único otário", que, grosso modo, diz assim: "Se Renan Calheiros é presidente do Senado, eu posso comprar um DVD pirata". E havia o estilo "está na hora de mudar", em que um ato que nega a propriedade intelectual é justificado diretamente pela injustiça social dominante. Valia tudo, salvo o óbvio: pela lei, piratear é crime. Pois bem, quando a culpa organiza nossa visão do mundo, tudo é permitido, assaltar de moto, a pé, de carro ou de colarinho branco. Se você quiser passar uma hora e meia com o coração na mão e se quiser pensar e viver a realidade nacional um pouco além dos limites impostos pela consciência culpada, não perca "Tropa de Elite".
terça-feira, 9 de outubro de 2007
Não seja um inseto!

I
Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado
num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao
levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos
arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar.
Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se
desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas
bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por
cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de
roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma
revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.
Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um
enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!
Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a
baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco
e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado
direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a
direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos,
para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor
entorpecida que nunca antes experimentara.
A METAMORFOSE, de FRANS KAFKA
Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado
num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao
levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos
arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar.
Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se
desesperadamente diante de seus olhos.
Que me aconteceu? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas
bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por
cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de
roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma
revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada.
Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um
enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia!
Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a
baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco
e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado
direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a
direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos,
para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor
entorpecida que nunca antes experimentara.
A METAMORFOSE, de FRANS KAFKA
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
Fique querendo

Leiam a boa reflexão sobre consumo, publicada na Folha de São Paulo:
São Paulo, quinta-feira, 04 de outubro de 2007
Anna Veronica Mautner
Anna Veronica Mautner
[...] O CONSUMISTA SUSPENDE A SUA APTIDÃO DE PENSAR PARA SE DEIXAR LEVAR PELO GRITO DO SEU DESEJO, COMO UMA CRIANÇA
"Ah! Você quer? Pois que fique querendo, porque querer e ficar esperando não fazem mal a ninguém." É um jeito de falar infantil, até malcriado, mas encerra uma grande verdade. Todos sabemos que "querer não é poder". Conseguir o que se quer depende de treinamento. Os bebês nascem como verdadeiras máquinas desejantes, que precisam de proteção imediatamente. O ar, o leite e o aconchego são vitais. Pela vida afora, temos de continuar a querer isto ou aquilo -uns mais, outros menos urgentes. Esperar é um aprendizado crucial: é assim que desenvolvemos aspectos essenciais da vida mental. Temos de aprender a distinguir, entre as necessidades, a que tem de ser atendida já da que pode esperar. Quando nenês, esperneamos por tudo que queremos. Com o tempo, distinguimos urgências urgentíssimas de outras que podemos protelar. Devagar, o ato de espernear vai sendo substituído por ensaios de pensar. Ninguém nasce pensando -eis algo que demanda treino. Não é um processo simples: são muitas etapas que, ordenadas, resultam em percepções, avaliações, julgamentos e, finalmente, pensamentos. A imagem do desejado ganha representação na nossa mente. Se eu quero uma bola e não a tenho à mão, vou encucar até desistir ou conseguir. Enquanto a tenho na mente, vou matutando jeitos de consegui-la. É nessa espera que reside a importância do "ficar querendo". Quando quero a bola e me dão a bola, não aprendo nada. Se tenho de estender o braço para alcançá-la, já preciso comparar a distância com o comprimento do meu braço. Se nem a tenho à mão nem ao meu alcance, preciso lançar mão de outras aptidões. "Onde a bola costuma ser guardada? Quem a guarda? Quem mais joga bola?" Essa cena é um belo exercício de pensar. Pensar se aprende pensando. Para desejar e realizar o desejo, temos de lançar mão de uma grande quantidade de conhecimentos. Não adianta querer jabuticaba na Arábia ou mesmo aqui, fora de época. A partir da infância, vamos desenvolvendo muitas aptidões que nos levam a memorizar, classificar, distinguir, tudo para melhor vencer as dificuldades. Depois de aprender a esperar, o que não quer dizer parar de querer, nós, enquanto máquinas desejantes, temos de lembrar uma infinidade de "prazos de validade". Guardar uma banana descascada na bolsa é bobagem. Dando um salto de desejante para consumista, defrontamo-nos com outra paisagem. O consumista suspende a sua aptidão de pensar para se deixar levar pelo grito do seu desejo, como uma criança. Outro personagem que suspende seu juízo de valor é o acumulador. Ele não usa os prazos de validade, a capacidade de categorizar: junta tudo, como se fosse tudo igual. Desejar, esperar, selecionar, optar, julgar e rever são aptidões mentais indispensáveis para uma harmônica relação de troca com o mundo. Enquanto esperamos e pensamos, estamos caminhando para a civilidade e para a autonomia.
ANNA VERONICA MAUTNER , psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, é autora de "Cotidiano nas Entrelinhas" (ed. Ágora)
amautner@uol.com.br
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Estudando com o blog
Caro aluno:
Você pode usar o blog de várias maneiras.
Para participar enviando um texto, uma figura, um gráfico, etc, você deve primeiro estar inscrito como autor desse blog. Para isso, envie-me um e-mail (bido@fmu.br) e eu vou lhe fazer um convite. Ao receber o convite, basta clicar no link enviado e seguir as instruções.
Para participar comentando os textos, basta clicar em "comentários", logo abaixo da mensagem.
Os textos dados em aula, bem como as apresentações usadas, serão disponibilizados aqui. Para acessá-los, você precisará de uma senha. Basta me enviar um e-mail e eu lhe indicarei a senha.
Além disso, quando utilizarmos um texto científico em formato eletrônico, bastará você clicar sobre o link para acessá-lo.
Sempre que precisar, envie uma mensagem para sanar suas dúvidas.
Bons estudos!
Bido
bido@fmu.br
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Bons estudos!
Bido
bido@fmu.br
Iniciando
Caros alunos:
Em tempos de interatividade e comunicação, vamos utilizar o blog como um espaço de discussão e troca de conhecimento.
A idéia é construirmos, sobre a nossa prática, um conjunto de conhecimentos discutidos e fundamentados teoricamente.
Aqui também estarão disponíveis os materiais e textos em formato digital trabalhados em sala de aula.
Participem e aproveitem.
Abraços
Bido
Em tempos de interatividade e comunicação, vamos utilizar o blog como um espaço de discussão e troca de conhecimento.
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Abraços
Bido
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